Respeitar as raízes e a história. Esta era uma das premissas do grupo StayUpon para o novo Upon Harbor, no Seixal. E uma visita ao hotel virado para a baía não deixa margem para dúvidas de que, ali, continuam vivas as memórias da emblemática fábrica de cortiça Mundet, encerrada em 1988 após quase oito décadas de operação.
Foram as voltas e contravoltas da economia e do mercado que ditaram o fim da unidade fabril que chegou a ser a maior da margem sul do Tejo. De origem catalã, escolheu o Seixal para se instalar, em 1905, sobretudo devido á sua localização – o cais, a proximidade a Lisboa e as linhas ferroviárias. Conheceu o seu período áureo nas décadas de 30 e 40 dos anos 1900, chegando a empregar 2500 pessoas. Ao papel económico, juntou-se o papel social, tendo sido inovadora na construção de uma creche e um jardim de infância para os seus trabalhadores, além de um grupo desportivo e da caixa de previdência.
Não resistiu, porém, ao avanço da modernização tecnológica e acabou por abrir falência e fechar, com as amplas instalações a ficarem ao abandono até que, em nome da história do concelho, a Câmara Municipal do Seixal decidiu resgatar o património, adquirindo-o em hasta pública.

E é aqui que entra a StayUpon e o hotel que deu nova vida às oficinas e aos escritórios da Mundet. Após seis anos – desde a conceção do projeto à sua conclusão, com a pandemia pelo meio – abriu, assim, o Upon Harbor.
Este é o sexto projeto do grupo que se estreou na hotelaria há pouco mais de uma década, com as Casas da Baixa, dando-lhe continuidade com outras duas unidades em Lisboa – o Upon Angels e o Upon Lisbon –, cruzando depois o rio para Alcochete, onde abriu o Praia do Sal Resort e o Upon Villa. E agora este aparthotel de quatro estrelas no Seixal.
A premissa comum a todos – como explicou a COO do grupo, Raquel Gomes, na visita ao mais recente membro da família – foi que cada um tivesse identidade própria e local. No Seixal, o fio condutor foi respeitar as raízes da fábrica, contando a sua história nos materiais e no design de interiores.

A cortiça não podia, pois, faltar. Está presente em múltiplos pormenores nas áreas comuns e nos quartos, das mesas de apoio aos candeeiros, estes saídos das mãos de um artesão local. A lembrar o passado industrial, há apontamentos em ferro, bem como máquinas originais. Que se misturam com fotografias antigas, que retratam a vida de trabalhadores da Mundet, e com cartazes publicitários que colocam o tempo em contexto. É esse também o espírito de muitos dos objetos integrados na decoração das áreas comuns, como telefones, máquinas de escrever ou máquinas de picar o ponto. Ou das obras de arte contemporâneas do brasileiro Ticiano Rottenstein feitas com desperdícios da fábrica.
Do mesmo modo, o mural exterior que acompanha a fachada lateral evoca o passado do edifício, mas também o ativismo do concelho. Assinado pela artista plástica Júlia Benetton, combina, nos seus 140 metros quadrados, imagens que falam dos trabalhadores, símbolos que reforçam a ligação à cortiça enquanto matéria-prima, e cravos vermelhos, que ilustram os combates políticos.

É através de uma fachada em vidro a toda a altura da anterior fábrica que o olhar da vila do Seixal descobre o hotel. É por ela também que entra a luz que chega da baía e do rio. Para um interior que, respeitando o legado industrial, é contemporâneo.
Assim é a decoração dos apartamentos, que se dividem entre tipologias T0 e T3, todos eles de uma dimensão generosa e completamente equipados para receber os hóspedes. Para uma experiência completa, há ginásio e sauna. E o ex-libris: o rooftop. Aqui, destaca-se a dupla piscina panorâmica – uma delas será coberta no inverno –, mas também o bar e o fire pit, para aquecer os fins de tarde mais frescos.

Experiências há muitas neste hotel que tem como diretora-geral Mónica Pereira, até agora no Upon Lisbon. Além de poderem visitar o Seixal – e um dos objetivos é transformar a cidade num destino turístico, à semelhança de Alcochete –, os hóspedes têm a possibilidade de desfrutar de atividades náuticas. E de um transfer do aeroporto muito especial: é que podem trocar a convencional carrinha, e chegar ao hotel de lancha, a partir da Doca de Santo Amaro, em parceria com a Seaview. A ideia é – explica a responsável pela unidade – desenhar a estadia à medida.
A gastronomia não podia faltar. Serve-se no Ebulição, o restaurante batizado também em homenagem ao passado, remetendo para o processo de fervura a que a cortiça era sujeita na fábrica, de modo a tornar-se mais maleável. A carta é assinada pelo chef Diogo Seixas, do Omaggio (Praia do Sul), com propostas que surpreendem – pelo nome e pela combinação de sabores. Para abrir o apetite, aqui fica um – Zé Polvinho –, mas a experiência tem direito a um artigo próprio.
