“Eu tenho um pião, gosto de o lançar, e fica, fica a rodopiar.” São versos de uma canção infantil, daquelas que se perdeu já no tempo, mas que encontram eco na criatividade da artista Joana Astolfi e da peça que criou para a Bordallo Pinheiro – precisamente um pião (não em madeira, como os tradicionais, mas em cerâmica). E o nome não podia ser outro: Rodopio.
Este Rodopio junta-se assim à coleção WWB – WorldWide Bordallianos, que desafia nomes nacionais e internacionais das belas artes, do design e da moda a reinterpretarem Bordallo.
Para Joana Astolfi foi, de certa forma, fácil. Fácil porque já era fã confessa das criações da marca. E por isso, no evento de apresentação da peça, em Lisboa, não hesitou em partilhar o que sentiu quando recebeu o convite: “Amei! Bordallo tem todo aquele mundo imaginário e lúdico que amo.”
O convite deu início a “uma viagem muito bonita”, mas uma dúvida de imediato emergiu: “O que vou fazer? Afinal, há tantas possibilidades e um playground tão vasto…”. Seria Inês Baptista da Câmara, a CEO do Studio Astolfi, a lançar a semente a partir da qual germinaria a peça: “Qual é o objeto que deixas sempre em todos os teus projetos?” foi a questão com apenas uma resposta possível – o pião.
E porquê? Porque, tal como na canção infantil, Joana sempre gostou de lançar piões, fazia-o com o pai. Porque é um objeto de brincadeira, dinâmico, cheio de movimento, mutante, orgânica, com vida.
Do conceito à execução foi um caminho que envolveu uma parceria muito próxima com a Bordallo Pinheiro, nomeadamente com a diretora criativa da marca, Elsa Rebelo. Para fiscalizar o pião, a artista recuperou um modelo que já tinha feito para uma montra da Hermès. Enviados os desenhos para a fábrica, quando chegou o momento de colocar as mãos na massa, o molde já estava pronto: “Estava perfeito, elegante, com curvatura, organicidade.”

Depois começou – como diz – “a brincadeira” de escolher, de entre os elementos que já haviam sido usados em peças da Bordallo, os que faziam sentido na sua. Afinal, o que está em causa é a reinterpretação. Joana sabia que não queria trabalhar com flora, mas, sim, com fauna e foi quando procurava uma forma animal que pudesse contornar o pião, moldar-se, que se deparou com as serpentes. Estava feita a escolha. Mas faltava ainda o elemento humano, com um paliteiro representando um touro a ser pegado por um forcado a servir de inspiração.
Da ligação entre os dois elementos nasceu a narrativa de Rodopio, um jogo entre a força humana e a da natureza, com o homem a tentar travar o avanço das serpentes.
Faltava apenas a cor. Com o laboratório da fábrica a oferecer um mundo de possibilidades, Joana sabia que queria as figuras com vários tons, em vidrado, mas o pião em mate e com pigmentação. De fora, ficou o branco.
O resultado é um Rodopio cerâmico, cheio de movimento, que se junta, na WWB, a peças criadas por artistas como Paula Rego, Vhils, Julião Sarmento, Studio Campana, Melanie Smith, Luiz Zerbini, José Pedro Croft e Rosângela Rennó.