A fachada palaciana do edifício azul claro engana. Porque basta transpor a porta para se perceber que ali o conservadorismo fica de fora, dando lugar a um ambiente jovem e industrial. É assim o Inspira Santos Boutique Hotel, que acaba de ser inaugurado na Avenida Dom Carlos I, em Lisboa.
Está, no entanto, a funcionar desde agosto de 2025, no culminar de um processo repleto de vicissitudes. E foi com humor que Filipe Osório de Castro, administrador do grupo Investoc, aludiu a essas vicissitudes ao intervir no evento de apresentação pública.
Depois do Inspira Liberdade, que caminha para os 16 anos, o grupo acionista dedicou-se à procura de um espaço na cidade de Lisboa para uma segunda unidade. O edifício que agora é hotel foi descoberto em 2018. Era então habitacional e carecia de reabilitação total. Nada que desanimasse, até porque falaram mais alto a história – foi residência dos duques de Aveiro, no século XVI – e a localização – em Santos, bairro efervescente, mas ainda longe do turismo de massas.
A decisão foi tomada e o edifício adquirido, mas, entretanto, a pandemia de Covid-19 adiou a construção, que se iniciou apenas em abril de 2021. Os planos voltaram a ser colocados em suspenso quando, em 2023, a poucos meses de terminar a obra, a empresa é notificada pelo Metropolitano de Lisboa sobre o lançamento dos trabalhos para extensão da rede – sem data de conclusão.
Seria, pois, preciso esperar até agosto de 2024 para o Inspira Santos estar pronto a abrir. Em teoria, pelo menos. Porque, como partilhou o gestor, muitas dúvidas se levantaram: “Vamos abrir assim? Que experiência vamos proporcionar aos nossos clientes? Será que não vamos estragar o nosso produto? Que quartos vamos ter? Com vista para a grua ou para a vala?”. A abertura aconteceria apenas um ano depois, ainda condicionada. O restaurante, por exemplo, só abriu portas em março deste ano – as obras em curso na rua não eram propriamente um convite para entrar e saborear uma refeição.
Contratempos à parte, Filipe Osório de Castro dá conta da ambição de tornar o Inspira Santos numa referência como lifestyle hotel em Lisboa. Num bairro em que o design e as novas expressões artísticas convivem, e em que a diversidade gastronómica da cidade se reinventou. A criatividade viverá, aliás, no hotel, que acolhe todos os meses exposições de artistas nacionais emergentes.

Do palacete, restam muitos elementos, com destaque para a fachada e para a escadaria. Mas, há quartos e espaços comuns em que os tetos abobadados lembram esse passado, convivendo, embora, com design modernista, de linhas industriais.
São 59 quartos, a que se juntam quatro suites, bem como um loft e uma penthouse, estes dois mais vocacionados para estadias longas e famílias. Os interiores são claramente orientados para um público nómada digital, com design minimalista e contemporâneo, em que a criatividade e a funcionalidade coabitam.

A oferta gastronómica vive no Faminto, o restaurante em que a parrilla é o fio condutor. O chef Rúben Santos é o mentor do espaço, que, apesar de inspirado na cozinha espanhola, argentina e uruguaia, se afirma com ADN português. A grelha marca 80% da carta, servida num ambiente muito orgânico, com as chamas à vista. O conceito é ilustrado no logótipo: uma cabra, desenhada como uma gravura rupestre, com um buraco na barriga a remeter para fome. Mas, quem entra faminto sai saciado.
E quem estiver sedento também fica bem servido: este é mesmo o nome do bar do Inspira Santos. Localizado no lobby do hotel, dá acesso ao Backyard, o pátio interior que inspira momentos de pausa ou de convívio e onde é possível aproveitar o final de tarde ou prolongar a noite com um copo na mão.

Fátima de Sousa