Há muito que Ana Sofia Oliveira ambicionava fazer um rótulo em burel. A ambição concretizou-se agora, num branco de vinhas velhas assinado pelo enólogo Carlos Raposo, e que é o mais recente projeto de Defio, a marca que a une a Sara Matos.
O desafio foi concretizado em parceria com a Burel Factory, tendo dado os primeiros passos numa reunião com a designer Inês Catana. No dia da apresentação em Lisboa, é ela que conta como aconteceu: “Foi muito engraçado. Tínhamos uma caixa cheia de farrapos de várias cores e formas e, às tantas, pegamos numa roseta cinzenta que utilizamos em muitas das nossas peças tridimensionais.” Foi amor à primeira vista, faltando apenas escolher a cor. E aqui é Sara que explica que, dado que o vinho seria branco, as preferências recaíram sobre um dos dois tons naturais da lã – a mais clara, próxima do cru.
As peças foram confecionadas, uma a uma, pelas costureiras da Burel Factory, em Manteigas. Mas, havia ainda um desafio pela frente: como colar a roseta na garrafa, garantindo que não se despegaria facilmente? Muitas colas depois, foi encontrada aquela que prometia corresponder ao objetivo, com os testes a confirmarem a resistência deste rótulo tecido.
E uma vez que o burel é da Serra da Estrela o vinho teria de ser também da região. O enólogo Carlos Raposo foi o eleito: “Gostamos de fazer vinhos com pessoas de que gostamos”, justificam Ana Sofia e Sara, recordando que já pairava há algum tempo a ideia de um projeto conjunto.

Depois do “sim” da Burel, chegou o “sim” do enólogo. As uvas são provenientes de vinhas velhas com uns estimados 70 anos, na zona de Nelas. Depois da vindima manual e da seleção em adega, a vinificação correu numa cuba de cimento invulgar: cor-de-rosa, “quase uma obra de arte”. O estágio prolongou-se por dois anos, ao sabor da vontade de fazer um vinho premium, distinto. “As vinhas velhas têm um elevado potencial de complexidade e profundidade. O nível de qualidade é muito alto, cabe ao enólogo não estragar”, comenta.
Partilhando as suas notas de prova sobre este Defio x Carlos Raposo Branco Vinhas Velhas, Carlos fala de um perfil singular, com toques de mineral e, aromaticamente, um pó de arroz, “como as avós usavam”. É leve e, simultaneamente, intenso, gordo e amplo na boca, com uma frescura e uma salinidade muito pronunciadas. “Um vinho diferente”, em suma, de que existem apenas 1200 garrafas.
É um tributo à amizade, como já haviam sido os vinhos anteriores da Defio (desafio em esperanto): um Clarete de Baga, na Quinta de Baixo, na Bairrada, e o Película Branco, com a Espera Wines, na região de Lisboa. Mas, no horizonte, pode estar mais uma colaboração com Carlos Raposo, desta vez um tinto, que ainda está adormecido, mas que Sara e Ana Sofia já tiveram oportunidade de provar: “Fez-nos chorar!”