É entre as castas internacionais e as castas que são património cultural de Colares que o produtor Infinitude Wines se procura afirmar. Com uma dose de experimentalismo a fazer correr riscos e produzir vinhos fora da caixa para a região e, ao mesmo tempo, a ambição de criar consistência num caminho guiado pela afirmação da identidade.
No fundo, “uma infinitude de qualidade”, como comentou o enólogo e diretor-geral, João Lino, numa prova em Lisboa a pretexto da entrada do projeto numa nova era, sob a liderança de Rodrigo Jardim Gonçalves.
Advogado de profissão, assumiu a missão de dar continuidade a um projeto familiar, em cuja génese está precisamente o seu pai, Jardim Gonçalves. E que se foi materializando com o contributo técnico do enólogo Martim Avillez, a quem se deve a plantação das primeiras vinhas na quinta da família, entre 1997 e 1999.
Vinhas de castas internacionais, como Pinot Noir, Merlot, Chardonnay e Semillon, não por desprezo das nacionais, mas por mero gosto pessoal. Ainda que a Touriga Nacional, por exemplo, tenha sido afastada intencionalmente. Mas assim foi por razões que se prendem com as caraterísticas da região de Colares, uma região de temperaturas baixas, com poucos dias de sol, manhãs completamente nubladas. O resultado seria um vinho sem fruta, sem verde, com muito grau. E assim a casta nacional deu lugar à francesa Pinot Noir.
Seria, pois, com esta casta que aconteceria a estreia. Porém, o primeiro vinho tem muito que contar, porquanto foi constituído por lotes de vários anos, o que, comercialmente, abriu a porta a alguns desafios. A regulamentação impedia que fosse considerado um vinho de ano, tal como impedia que fosse IG – Indicação Geográfica. “Do ponto de vista comercial, foi um desafio. Era uma marca nova, mas sem ano, sem região, sem castas no rótulo”, recorda Rodrigo Jardim Gonçalves. Ainda assim, a decisão foi manter este vinho como o legado da família. E Legado ficou a marca, a ela estando reservados os melhores lotes de Pinot Noir.
Este é um vinho de chão duro, mas o terroir de Colares é reconhecido pelo chão de areia. E ter vinho de Colares era um imperativo. O que levou à procura de um terreno em que pudessem ser plantadas as castas históricas – Malvasia e Ramisco. Um hectare num universo que não ultrapassa os cerca de 12 hectares dos 13 produtores conhecidos.

Fiel à região, mas com cunho próprio
São episódios de uma história de que João Lino faz parte desde 2024, ano em que entrou como enólogo, assumindo mais tarde a direção-geral do projeto com o objetivo de acompanhar todo o processo.
O propósito, esse, é o de contribuir para um projeto fiel à região, que não vai atrás de modas, nem de sucesso, não pretendendo, pois, sobrepor-se aos demais produtores da região. Procurar uma identidade própria é o fio condutor da abordagem.
E a estratégia assente em três pilares, o primeiro dos quais se alicerça no terroir de chão rijo, onde tudo começou, com castas selecionadas pelo gosto pessoal do fundador. O segundo é o chão de areia, casa das castas culturais e históricas de Colares. E o terceiro respeita à gama Indie. Indie de independente, ainda que não tenha nascido assim: nasceu como Indígena, mas deixou de fazer sentido, no entendimento de que havia potencial para fazer mais vetores, com perfis de vinhos que não usassem apenas leveduras indígenas.
São quatro referências, a começar pelo Indie Semillon, um vinho com baixa intervenção, pensando para recriar os aromas primários do bago na boca. Já o Indie Doce, engarrafa 180 gramas de açúcar, estando a evoluir para um colheita tardia.
A gama inclui ainda o Indie Pinot Noir, cuja primeira colheita foi a de 2024. É, nas palavras do enólogo, um tinto para quem não gosta de tintos. Fresco, com pouca cor, tratado como se fosse um branco. O mercado respondeu: das 1500 garrafas do primeiro ano cresceu para as atuais 6000.
Muito menos – apenas 400 – são as unidades do Indie Areia, um palhete que resulta de um field blend de Ramisco e Malvasia. Feito logo na vinha, é descrito como uma nova interpretação do que pode ser a região, muito embora saia dos ditames regulamentares. “Quando se junta duas castas nobres, o vinho torna-se bastardo e não pode ser DOC Colares, tem de ser IG Lisboa”, lamenta João Lino. Mas, não lamenta a ousadia de um vinho que faz pensar no que a região pode produzir de diferente.
E porque tudo começou com Pinot Noir, à prova esteve o Infinitude Pinot Noir 2024, uma colheita que assinala também o lançamento da nova imagem. Uma mudança necessária para clarificar no packaging o posicionamento de preço deste vinho. Com 14 meses de estágio em barrica, incorpora no lote cerca de 15% da colheita de 2013, com o objetivo de o enriquecer com a história do Legado.
Finalmente, o Colares Ramisco, um vinho de 2017 ainda com a mão de Francisco Figueiredo, o enólogo da Adega Cooperativa de Colares. A ideia é que, com adega própria, a Infinitude Wines vá fazendo a transição no perfil deste vinho, até ser inteiramente “da casa”.
São 13 as atuais referências do produtor, cuja capacidade máxima é para as 40 mil garrafas por ano, sendo que os vinhos de Colares se ficam pelas duas mil. Sempre tendo como pano de fundo o ideal de um projeto com identidade e “infinitude de qualidade”.