Foi para dar a conhecer a riqueza e diversidade dos vinhos transmontanos que a Trás-os-Montes Wine Experience desceu a Lisboa para um jantar a quatro mãos no restaurante Nobre. Houve vinhos que surpreenderam, outros que não nos convenceram e um que se destacou, colhendo uma boa dose de aplausos.
A presidente da Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes, Ana Alves, explicou o evento – quer o de Lisboa, quer o do Vidago, uns dias antes – com a necessidade de dar a conhecer a região. Uma região que, como sublinhou, é relativamente recente ao nível da produção, mas com uma “ancestralidade imensa”, testemunhada por lagares que remontam ao período romano.
São mais de 120 marcas de vinhos com o selo da CVR, de que uma pequena amostra esteve em Lisboa. Dez produtores viram os seus vinhos harmonizados com as receitas de dois chefs, também eles transmontanos: Justa Nobre, a anfitriã, e Óscar Geadas, detentor de uma estrela Michelin no G Restaurante, em Bragança. O menu seguiu o mesmo propósito, evidenciar a qualidade dos produtores endógenos: assim eram 12 dos 14 produtos confecionados.
Os primeiros vinhos a chegar ao copo foram dois brancos, um deles o claro vencedor da noite. Trata-se de Códega do Larinho 2024, da Casa José Pedro, o produtor mais novo da região, mas também aquele que responde por maior volume de uvas. “Uma responsabilidade acrescida”, como comentou Marcos Lopes Paulo, sublinhando o desejo de ver os seus vinhos no separador Trás-os-Montes nas cartas dos restaurantes (e não integrados no Douro). Sobre o vinho em prova, ganhou o nome da casta que lhe dá origem – um nome difícil de pronunciar, num vinho, nas suas palavras, “difícil de esquecer”. Com características muito vincadas, em particular no que ao aroma respeita, é proveniente de vinhas a quase 700 metros de altitude, o que lhe confere frescura e acidez, a que se junta alguma mineralidade aportada pelo xisto do solo.

O segundo vinho que acompanhou as entradas – alheira de Mirandela, salpicão de Vinhais, queijo e azeite DOP – foi o Alto do JOA Branco 2022. José Ortega Afonso é o produtor que empresta as iniciais do seu nome ao vinho, que apresentou com memórias de infância, mas também memórias de quando, em 2008, se apercebeu de que havia agricultores que estavam a arrancar vinhas velhas, um património da região. “Deu-me uma dor na alma”, comentou. Foi o que o levou a decidir fazer um vinho que fosse referência na aldeia de Parada de Infanções, começando por aprender com o Instituto Superior de Agricultura até lançar a primeira colheita, em 2013. Em prova esteve um branco de curtimenta, feito como via o avô fazer.
Também o Flandório Reserva Branco 2023 é uma homenagem a um avô, com o apelido que hoje se lê no rótulo. Produzido na região de Mirandela, é um blend de Viosinho, Gouveio e Códega do Larinho, de cor cítrica e notas igualmente cítricas. Acompanhou o primeiro prato assinado por Óscar Geadas, um creme de castanhas com camarões, a que o marisco nada aportou em sabor ou textura.
O prato seguinte faz parte das receitas de Justa Nobre: cuscus de vinhas com carnes à moda da aldeia. Guloso nos sabores das carnes e enchidos, foi disputado por três tintos, o que dispersou desnecessariamente a prova, ficando difícil identificar a melhor harmonização. O primeiro deles foi o Vinho dos Mortos 2024, cuja história foi contada por Nuno Pereira: assim, deve o nome ao tempo das invasões francesas, do início do século XIX, quando o povo de Boticas decidiu enterrar o vinho sob as pipas e os lugares, poupando-o assim ao saque das tropas de Napoleão; no final, desenterrado o vinho, uma surpresa esperava os locais – é que tinha evoluído para melhor. Proveniente de vinhas centenárias, em que as castas brancas e tintas se misturam, este vinho resulta de pisa a pé, fermentação em lagar e depois em cuba inox, sem madeira.


Mais recente é a história do Villela Seca Vinhas Velhas. Localizado na sub-região de Chaves, deve o nome à aldeia de Vilela Seca, sendo um projeto recente de Alfredo Alves Pires, que decidiu dedicar-se à viticultura após a reforma profissional. Localizadas a cerca de 500 metros de altitude, as vinhas velhas apresentam grande mistura de castas, embora sobressaia o Bastardo.
A história do produtor do terceiro vinho, o Ninho da Pita Grande Escolha Tinto 2021, também é recente. Remonta a 2014 quando Vítor Bebiano pegou na propriedade de família na zona de Alfândega da Fé, com o objetivo de mostrar como eram feitos os vinhos ancestralmente. Já o nome da marca, tem na origem uma galinha (ou pita, como é designada em Trás-os-Montes) desaparecida na aldeia e que, quando reapareceu, vinha acompanhada de prole, tendo-se percebido que havia feito ninho na vinha.
Continuando nos tintos, chegou a vez de os copos receberem o José Preto Grande Reserva Tinto 2018 e o Vinhas Velhas Mogadouro Reserva Tinto 2020, harmonizando mais um prato de conforto da chef anfitriã, no caso bochechas de porco bísaro, batata salteada e grelos. O primeiro foi dado a conhecer por Dulce Carvalho: localizada em Sendim, no planalto mirandês, a Casa José Preto possui 12 hectares de vinha, sendo cinco de vinhas velhas. Começou a produzir em 1998, com o Grande Reserva a exibir grande intensidade de nariz e de boca, fruto dos 12 meses de estágio em barrica.
Pelo segundo falou Fernando Mogadouro, para partilhar que provém de uma adega familiar, com pequena produção e sem ambições para alargar. São 15 mil litros por ano, entre brancos e tintos, todos intencionalmente de vinhas velhas, pois, embora produzam menos, são bastante mais expressivas.


Era chegado o tempo das sobremesas. Óscar Geadas trouxe um pudim de amêndoas, de receita e confeção maternas. Foi saboreada na companhia de Quinta do Salvante Vinhas Velhas tinto 2019, com o produtor a ser um dos mais antigos de Valpaços, atualmente na oitava geração. No field blend, dominam as castas tintas, sobretudo Tinta Amarela e Bastardo, com as brancas a representarem 20%.



A terminar, Quinta Serra D’Oura Espumante Grande Reserva Rosé 2020. Como destacou a presidente da CVR, Trás-os-Montes tem um grande potencial para a produção de espumantes, mas ainda são poucos os produtores que se aventuram. É o caso deste, 100% Touriga Nacional, servido com uma mini rabanada com doce de castanhas, criada por Justa Nobre, mas que sobressairia mais com um prato salgado.
Não obstante os desencontros entre o copo e o prato, este jantar serviu o propósito que lhe esteve na origem: dar a conhecer os vinhos da região transmontana.