O que acontece a um vinho quando embarca num navio, dá a volta ao mundo e cruza o equador? A pergunta encontra resposta na José Maria da Fonseca: o vinho envelhece. Ao mesmo tempo, ganha um novo sabor e uma nova cor. E é esta a génese do projeto Torna Viagem, cuja nona edição acabou de chegar a bom porto (leia-se Azeitão), depois de mais de 800 litros de Moscatel de Azeitão de 2023 terem navegado com o navio-escola Sagres.

A história conta-se em vários capítulos, tendo o mais remoto deles sido escrito por acaso. Foi o enólogo Domingos Soares Franco – membro da sexta geração da família que gere a José Maria da Fonseca – o porta-voz das memórias que dão conta de que, no século XIX, a empresa pedia aos comandantes dos navios que levassem a bordo cascos de moscatel destinados a exportação. Nos portos de destino, seriam esperados pelo respetivo importador ou poderia ser o próprio comandante a negociar a venda. Ora, quando as vendas não se concretizavam, o vinho fazia a viagem de regresso. E, uma vez na adega, quando os cascos eram abertos, uma surpresa esperava os provadores: o vinho estava diferente.
Esta descoberta acidental passou a alimentar um negócio intencional: e a José Maria da Fonseca começou a apostar nessa viagem marítima em dois sentidos para oferecer ao mercado um moscatel com características únicas. Nascia, assim, oficialmente o Torna Viagem.
No século XX foram sendo enviados e comercializados vinhos do século anterior, mas a escassez de stock levou à decisão de suspender o projeto. Que viria a ser retomado por altura da comemoração dos 500 anos da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral. No ano 2000, o moscatel de Setúbal voltava ao convés de um navio, mais concretamente da Sagres. Foi a primeira de nove viagens do século XXI, a última das quais partiu da base naval do Alfeite a 30 de abril último para regressar em finais de agosto.
No total, mais de 20 mil litros do moscatel da José Maria da Fonseca já navegaram por outras águas que não as do Tejo ou do Sado. Com alguma dose de experimentalismo e curiosidade à mistura: Domingos Soares Franco recordou que chegou ao ponto de tentar perceber se havia diferenças no vinho em virtude da localização dos cascos no navio – seria o vinho que viajava a bombordo distinto do que seguia a estibordo era uma das questões. A resposta foi negativa: os cascos sofriam as mesmas influências – temperatura, humidade, oscilação – independentemente da zona do convés onde estivessem.
Um segredo e um desejo por cumprir
Das muitas histórias do enólogo uma há que envolve um segredo e uma colheita muito especial – a de 1911. Foi “uma loucura”, comentou, na apresentação do mais recente Torna Viagem: “Não disse a ninguém, nem ao meu irmão”, partilhou, aludindo a António Soares Franco, nessa altura presidente da empresa. Só duas pessoas sabiam: o comandante de então do navio e o presidente da Comissão Vitivinícola da Península de Setúbal. O irmão soube apenas quando já não havia retorno, expressou receios pelo impacto na qualidade do vinho, mas a verdade – conta o enólogo – é que “ficou extraordinário”.
Essa colheita atravessou o equador seis vezes, tendo feito a volta ao mundo, com exceção do continente africano. E deixou em Domingos Soares Franco uma vontade de ir além na experiência e tentar perceber o que aconteceria se fizesse uma segunda volta ao mundo, já com todos os continentes no mapa. Enviou, pois, um casco do mesmo moscatel, a bordo da Sagres, mas a Covid-19 desacertou a bússola dos planos e o navio acabaria por receber ordens para regressar a Portugal quando se encontrava na Argentina.
E o que alimentava esta ideia? O saber que quando fazem a travessia do Equador envelhecem cerca de 15 anos, quando completam uma viagem ao mundo envelhecem o dobro. E ficar na dúvida sobre quanto envelheceriam se cumprissem duas voltas ao mundo.
A dúvida subsiste. No entretanto, há dois novos Torna Viagem para provar, o da colheita de 2017 e o de 2023. De ambos – como aliás, de todas as edições – há sempre parte do lote que embarca e parte que fica em terra, o testemunha. É este que permite fazer a comparação e identificar as diferenças.
É o olhar que primeiro as deteta. Por norma, o que viaja fica com uma tonalidade mais escura. No caso de 2017, não foi bem isso que aconteceu: o testemunha é o mais escuro, enquanto o Torna Viagem se apresenta turvo. Uma reação inesperada que Domingos Soares Franco explica com o facto de a cor ainda não estar bem estabilizada aquando do embarque, podendo ter-se precipitado na viagem.
Já o de 2023, recém-regressado, tem uma história na sua origem. O objetivo era criar um moscatel comemorativo dos 200 anos da José Maria da Fonseca, que acontecem em 2034. Mas, Domingos Soares Franco quis sair da caixa, produzindo um vinho que, muito embora seguindo as regras oficiais, desse margem para alguma imaginação. E o que decidiu foi alterar o tempo de adição de aguardante, parando a fermentação mais cedo, aos cinco graus. O seu braço direito, o enólogo Paulo Hortas, seguiu o método tradicional, mas com menos contacto pelicular, o que retira cor ao moscatel.
Na Sagres seguiu o de Paulo Hortas: uma barrica de 600 litros e uma meia barrica de 225 litros. Finda a viagem, o lote foi já feito em laboratório, numa proporção em que 70 por cento pertence ao moscatel assinado por Domingos Soares Franco. Para provar apenas em 2034.

Provar para crer
Quem já teve oportunidade de provar o lote que embarcou em abril foi o comandante da Sagres, José Eduardo de Sousa Luís. Também ele com uma história para contar, a história da viagem de 2010, em que integrava a guarnição do navio-escola como oficial navegador. “Muitos quartos [períodos de serviço] foram passados na companhia das pipas, uma a bombordo, outra a estibordo. Pensava que devia ser mito que as tempestades, as temperaturas, as diferenças de humidade pudessem influenciar o vinho. Mas, no final do ano, viemos fazer a prova e, efetivamente, havia uma diferença significativa em cor e em sabor”, descreveu.
O que se notou um travo a mar, muito embora, como Domingos Soares Franco referiu, as análises laboratoriais não tenham detetado qualquer teor de sal. A explicação fica no reino das possibilidades.
Este ano, o navio-escola Sagres rumou a Nova Iorque, onde, na última semana de maio, foi palco do apoio à candidatura portuguesa ao Conselho de Segurança da ONU. Seguiu depois para as Bermudas, para celebrar o Dia de Portugal, num território em que um quarto da população é portuguesa. Regressou aos Estados Unidos, para participar na regata Sail 250, após o que apontou ao arquipélago dos Açores, a tempo de integrar as comemorações de Ponta Delgada como capital portuguesa da cultura. Voltou ao Alfeite para receber a bordo os candidatos à escola naval, numa viagem à Madeira. E, finalmente, aportou para desembarque do moscatel Torna Viagem, parte do lote que assinalará dois séculos da José Maria da Fonseca.