Foi em Paris que a vida trocou as voltas a Célia Varela, levando-a a deixar a carreira como professora para abraçar o mundo dos vinhos. Um desafio a que se entregou, ou não fosse uma duriense de cepa. Hoje, diretora-geral da Quinta do Pessegueiro, partilha com o Farniente algumas das suas notas de prova.
De professora a gestora de um projeto de viticultura. O que trouxe da escola para a quinta?
Cresci num ambiente rural e, apesar da proximidade com o mundo agrícola desde criança, nunca me passou pela cabeça enveredar pelo mesmo. A vida trocou-me as voltas quando, há muitos anos, me cruzei com Clara Rocha, filha de Miguel Torga, em Paris. Foi aí que o meu destino se começou a revelar… e comecei a questionar-me… “Que há de fazer um filho, senão ser fiel à sua cepa?” Apresentaram-me o projeto da Quinta do Pessegueiro ainda era eu uma recente docente formada em Línguas e Literaturas Modernas.
Sempre encarei os desafios com muita garra, coragem e determinação.
A construção e a longevidade de uma marca exigem um processo de gestão eficiente e isso implica uma entrega enorme.
O que o atrai no mundo dos vinhos?
Comecei a perceber melhor a dimensão do mundo dos vinhos quando entrei nele profissionalmente. Querendo aprender mais, apostei e investi na minha formação ao logo dos anos, sendo a viajar, para aprender e descobrir cada vez mais vinhos do mundo, a provar, para compreender as suas características e diferenças, e a frequentar vários cursos.
Uma inexplicável atração telúrica, uma vontade de salvar e defender uma região que se destaca pela sua história, diversidade vitivinícola e projeção internacional.
Acompanhar a notoriedade que os vinhos portugueses alcançam além-fronteiras.
A maior lição da Quinta do Pessegueiro
A busca constante da excelência, o compromisso com a autenticidade e o respeito pela Região Demarcada do Douro e por todos quantos verteram suor e lágrimas para que hoje haja uma zona conhecida em todo o mundo pelos seus néctares e paisagens.
O vinho tem género?
O panorama com a predominância do sexo masculino na produção do vinho tem-se alterado. As mulheres lutaram e conquistaram o seu lugar.
O vinho é o resultado da paixão e da entrega de cada um, seja ele homem ou mulher.
A que sabe o Douro numa garrafa?
Sabe a vitória. Testemunha o enorme esforço e o trabalho heroico de transformar a rocha mãe em terra. Testemunha todo o trabalho até à colheita do precioso néctar. Os vinhos do Douro são distintos pelo seu terroir, pelas castas autóctones e pelas pessoas que os produzem. Foram muitas as gerações de durienses que conceberam esta região.
Que língua fala o vinho do Porto?
Todas as línguas, foi ele que nos abriu as portas para o mundo. É um dos símbolos de Portugal no mundo.

Tinto ou branco?
O vinho sempre foi um elemento presente à mesa, mas foi apenas depois dos 23 que comecei a vê-lo de outra forma. Hoje, sou bastante exigente com o que bebo.
Na minha garrafeira tenho vinhos de todos os estilos. Qualquer ocasião é ótima para beber um copo de vinho, seja ele tinto ou branco. Tudo depende do momento, da companhia e da harmonização.
O vinho preferido
Gosto de diversos estilos e regiões, mas, sendo do Douro, identifico-me mais com esta região. A nível internacional, sou apreciadora dos brancos da Borgonha e de Champagne.
A casta de eleição
Difícil escolher só uma, já que temos tantas no Douro. No entanto, seleciono a casta Rufete, uma casta presente nas vinhas velhas e sempre referida com fascínio pelo meu pai durante os nossos trabalhos agrícolas. Hoje, praticamente em extinção.
Se fosse um vinho, como seria?
Fresco, elegante, complexo e muito guloso… capaz de ativar a imaginação.
Fátima de Sousa