Cruzar a gastronomia e a arte foi sempre o propósito da viagem lisboeta do Cícero, restaurante de raízes brasileiras e influência francesa. O primeiro destino foi Campo de Ourique, onde esteve de portas abertas por mais de três anos, até que sentiu o apelo da mudança. E agora mora no Chiado.
O conceito de restaurante-galeria, que sempre foi bandeira dos seus fundadores, Paulo Dalla Nora Macedo e Ana Carolina Silva, permanece intocado. Aliás, ganha nova vitalidade com a inclusão num dos bairros lisboetas culturalmente mais dinâmicos: basta pensar nos teatros que circundam o Cícero – o Teatro-Estúdio Mário Viegas, o São Luiz e o São Carlos, logo aí, a tocar a Rua dos Duques de Bragança, e o da Trindade, mais acima.
Intocada permanece, igualmente, a homenagem ao pintor pernambucano Cícero Dias, que dá nome – e obras – ao restaurante: afinal, quer em Campo de Ourique, quer no Chiado, as paredes exigem quadros deste autor. Os seus traços modernistas são agora beneficiados pela amplitude e luminosidade deste espaço de tetos em abóboda.
Não estão sozinhos: outras obras do acervo do fundador do restaurante contribuem para que a refeição seja um exercício de contemplação artística. É, aliás, a arte que dá as boas vindas aos clientes: uma porta de vidro assinada por Marianne Peretti, artista parisiense que tem no currículo o facto de ter sido a única mulher a integrar a equipa que projetou a cidade de Brasília.

São 30 os lugares sentados, sobre os quais se abre a cozinha. É aí que ganha vida o outro lado da arte: a da gastronomia. Assinada por Alessandra Montagne, brasileira radicada em Paris, tem em Ana Carolina Dias a chef executiva. É ela que faz as honras da casa a maior parte do tempo, incutindo a sua criatividade e o seu entusiasmo nas propostas que mergulham nas tradições do Brasil, trazendo-as para os dias de hoje, numa reinvenção em que os ingredientes falam português, mas a técnica domina o idioma francês.
É logo nos amuse-bouches que se prova esse cruzar de influências. A começar por um surpreendente pastel de creme de couve flor. E surpreendente porque, na aparência, é um mini pastel de nata. Até é polvilhado com canela (ou parece, porque, na verdade, é pó de trufa). Mas couve flor é, de facto, o que se esconde no interior – é preciso provar, para desenganar os olhos. Trata-se de uma homenagem a Lisboa.
Na bagagem da mudança para o Chiado vieram as memórias afetivas de Alessandra – é com elas que se entra no menu de degustação e já assim era em Campo de Ourique. Consiste num trio formado por pão de queijo com caviar, dadinho de tapioca e coxinha de frango – e esta conta a história dos primeiros tempos da chef em Paris, quando confecionava este salgadinho típico do seu país para vender.


Urtiga, espinafre, queijo de cabra, curgete é uma das entradas e também aqui há lugar para memórias – “Para lembrar o Brasil e a infância”, nas palavras de Ana Carolina. Assume a forma de um raviolo recheado de queijo de cabra e com creme de queijo coalho, sobre o qual se equilibra uma telha de urtiga. Abóbora, queijo e camarão é igualmente uma recriação de um prato típico, o camarão na moranga. O queijo é conté 24 meses e no creme de abóbora incorpora cachaça envelhecida.
Bem português é o bacalhau, servido com castanha do Pará, couve flor e amêndoas. Conta a chef executiva que é uma inspiração de uma obra de Lula Cardoso Ayres, “Baianas”. Pode dizer-se que o duo de porco que se seguiu é igualmente português, mas o mesmo não se pode dizer dos acompanhamentos – cumaru e puxuri, bem como feijão branco fumado. Já o pato, chega à mesa duas texturas – magret e croquete –, com polenta, jambu e tucupi.

Estes são pratos de inverno do Cícero, que podem ser degustados no menu em oito momentos ou no menu promenade, em que o cliente escolhe à la carte uma entrada, um prato principal e uma sobremesa. Junta-se-lhes uma opção vegetariana, com seis momentos.
Fazem parte do posicionamento do restaurante, que não se quer resumir a um fine dining de comida brasileira: o foco está no requinte da comida de conforto.