Sabia que na Madeira se produz rum há séculos? E que o rum agrícola da região é único no mundo (com uma pequena exceção para as Caraíbas francesas)? Assim é, de facto. E, de entre os produtores, há um que soma história: a William Hinton, fundada em 1845. E que acrescenta inovação, como o smoked rum, lançado em 2025. Mário Gomes é o embaixador da marca e é ele que partilha as suas notas de prova sobre este produto singular.
A Madeira é boa para o rum?
A Madeira reúne condições históricas, agrícolas e climáticas únicas para a produção de rum, em particular de rum agrícola, obtido a partir de sumo fresco de cana-de-açúcar.
A cultura da cana na Região remonta a 1425, tendo a Madeira sido um dos primeiros grandes centros de produção de açúcar do Atlântico. Ao longo dos séculos, desenvolveram-se na ilha conhecimentos profundos sobre fermentação, destilação e envelhecimento em casco de carvalho, hoje aplicados ao Rum da Madeira.
O saber construído em torno do clima atlântico, das temperaturas moderadas e da elevada humidade influencia de forma decisiva o envelhecimento do rum, promovendo uma evolução equilibrada no casco – num processo historicamente dominado na Região através do Vinho da Madeira.
Esta ligação entre história, clima, conhecimento de envelhecimento e matéria-prima confere ao rum da Madeira um perfil singular.
O que é que o rum da Madeira tem? O que o torna diferente?
O rum da Madeira distingue-se pela forte ligação à agricultura manual e de pequena escala. A cana-de-açúcar é maioritariamente cultivada em parcelas reduzidas, muitas vezes em socalcos, com trabalho manual intensivo, incluindo a desfolha e corte manual, prática que contribui para uma maturação mais homogénea e para a qualidade do sumo extraído.
A isto junta-se a qualidade da água, proveniente de nascentes naturais e de um sistema histórico de levadas, naturalmente equilibrada e adequada aos processos de fermentação e destilação, influenciando a pureza e a expressão aromática do rum.
Associados a este cuidado agrícola estão um saber-fazer histórico e um clima atlântico único, que condiciona de forma decisiva o envelhecimento em casco.
É esta combinação entre trabalho humano, qualidade dos recursos naturais, território e conhecimento técnico que torna o rum da Madeira singular e profundamente autêntico.
E o rum da William Hinton? O que o torna especial?
A marca inspira-se no antigo Engenho do Hinton, uma das referências históricas da transformação da cana-de-açúcar na Região, recuperando esse legado industrial numa linguagem contemporânea, orientada para a qualidade e para a autenticidade.
Em cada safra, o foco está em afinar e melhorar todos os detalhes do processo de transformação da cana-de-açúcar, garantindo que a base do envelhecimento seja sempre um destilado de elevada qualidade.
A partir daí, o rum é explorado de múltiplas formas: fermentações distintas antes da destilação, diferentes métodos de destilação e envelhecimentos em barricas de diversas origens, que acrescentam complexidade e profundidade ao produto final.
Esta diversidade reflete não só uma atitude criativa, mas traduz-se também em experiências diferenciadas para o consumidor.

Qual o traço comum do portefólio da marca?
O portefólio da William Hinton é orientado por uma ideia simples: dar “expressão” ao Rum da Madeira, deixando que o rum fale por si.
Procuramos runs frescos, vegetais e minerais, em que a ligação à cana-de-açúcar seja clara e imediata. O envelhecimento não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta usada com critério, para acrescentar complexidade e profundidade sem apagar a identidade do destilado.
E qual é a joia da coroa?
Temos vários runs de que nos orgulhamos, explorando diferentes fermentações, métodos de destilação e finais de estágio em distintos cascos de carvalho. No entanto, o Rum William Hinton 6 Anos, premiado e reconhecido internacionalmente, é talvez aquele que melhor expressa a identidade da marca.
Não apenas pelo tempo – seis anos de envelhecimento –, mas, sobretudo, pela complexidade aromática e pela exigência do seu processo de fabrico. Trata-se de um blend resultante do envelhecimento em cinco tipos de barrica – Vinho da Madeira, sherry, Porto, brandy e whisky –, cada uma contribuindo com camadas distintas de aroma e estrutura.
O resultado é afinado lote após lote pelo nosso master blender, Emanuel Camacho, num exercício permanente de equilíbrio. O verdadeiro desafio está em garantir que nenhuma barrica se sobrepõe, mas que todas contribuem para um perfil coerente e harmonioso.
É um trabalho lento, rigoroso e profundamente artesanal, em que o tempo é apenas uma parte da equação – e a harmonia o objetivo final.

Como se inova com rum?
Continuamos a inovar através do investimento no processo. A aquisição recente de uma nova destilaria permitirá desenvolver novos runs com perfis aromáticos distintos, reforçando a diversidade do portefólio.
A inovação faz-se também na exploração do envelhecimento: através da seleção e diferenciação dos tipos de barrica utilizados, aumentando a complexidade e a diversidade do rum, e acompanhando a sua evolução ao longo dos anos, com o objetivo de reforçar o portefólio com runs mais velhos, mais complexos e, em alguns casos, verdadeiramente distintos.
O que tem de criativo o rum fumado?
Tem impacto. No aroma, no sabor, no rótulo e, sobretudo, na sensação que deixa na boca – é impossível ficar indiferente.
O contacto do Rum da Madeira com barricas de peated whisky revelou-se particularmente interessante. As notas de fumo não são comuns no rum, muito menos no rum agrícola, mas aqui criam um contraste inesperado com as notas doces, mas ainda verdes do rum agrícola.
É um produto irreverente, intenso, que mistura a frescura vegetal da cana com a expressividade do fumo, resultando numa experiência memorável.

A solo ou em cocktail?
O rum é extremamente versátil.
Pode ser um shot rápido, um digestivo depois de uma boa refeição de carne, misturado com cola ou ginger beer, ou integrado em cocktails mais elaborados, onde até pode lembrar o efeito do mescal nos cocktails.
Tudo depende do momento – e da curiosidade de quem o bebe.
O rum casa bem com…
Com muita coisa. Chocolate, fruta, sushi, carne. Há sempre um rum certo para cada combinação. É uma categoria com um espectro aromático enorme, que varia consoante a origem, o método de produção e o tempo de envelhecimento.
Na gama William Hinton, há runs que funcionam melhor com presunto ou queijo, outros pedem um chocolate negro salgado, como o 6 Anos.
Os runs mais longos, secos e complexos, sobretudo os envelhecidos em barricas de vinhos fortificados, são excelentes parceiros para um bom charuto.
O melhor momento para um copo de rum?
O rum pode ser poncha, mojito, cuba-libre, daiquiri ou piña colada. Pode ser aperitivo, digestivo, um tiki cocktail ou simplesmente um shot de alegria com amigos. Diria que qualquer momento pode ser o certo – basta escolher como.