Quando o restaurante se converte em galeria de arte, a mesa numa tela e o cliente em artista isso é… o 7 Paintings Dinner Show, a experiência imersiva que acontece às sextas e sábados no Novo Mundo, do Duo Hotel Lisbon. E que fomos conhecer, numa viagem sensorial – entre gastronomia, música e tecnologia – por sete quadros famosos.
São quadros que vivem nos pratos confecionados pelo chef Nuno Pizarro, que, ao longo de alguns meses, mergulhou na pintura dos vários artistas para se inspirar e transpor para o menu cada uma das criações. O que fez recorrendo sobretudo a produtos de fornecedores locais – do vizinho Mercado da Ribeira –, ainda que a sua própria criatividade tenha sido condicionada pelos requisitos do formato original.
O resultado são duas horas e meia de um jantar com capacidade para 20 pessoas e que vai muito além da gastronomia: é, essencialmente, um espetáculo de som e imagem, de que são anfitriões um duo incontornável na história da arte: o pintor renascentista Leonardo da Vinci e a sua Mona Lisa. O guia, esse, é Omar, um chef virtual que surpreende com as suas “aparições” na mesa.

Há todo um storytelling por trás deste jantar. Na verdade, toda uma encenação em que os clientes deixam de ser meros recetores passivos do que chega à mesa, para serem atores da própria narrativa.
Michelangelo é o primeiro pintor a entrar em cena, com a sua pintura mais icónica – “A criação de Adão”, que obrigada os milhares de visitantes da Capela Sistina, no Vaticano, a olhar para o teto – a ser recriada num prato intitulado “O Despertar da Criação”. Trata-se de uma brunoise fresca de tomate ao estilo do Algarve, com óleo de manjericão e agrião, finalizada com sal marinho português. E que só se descobre depois de desvendado um código escondido na mesa.
“Lisboa Secreta” traz Banksy ao Novo Mundo, numa interpretação de “Menina com Balão” que assume a forma de carpaccio de vitela com lima e ervas frescas, maionese de trufa, terra de azeitona preta, micro-agrião e pão do Alentejo torrado.


O ato 3 desta experiência vem de Espanha: “A Mulher que Chora”, de Pablo Picasso”, é espelhada numa hóstia que “pinta” de cor o prato a que Nuno Pizarro deu o nome de ”Fragmentos do Atlântico: filete de salmonete com citrinos e folha de louro, salada de aipo com limão e essência de vinho tinto com alho.

Pollock é o artista que se segue nesta galeria, com a arte moderna a ser traduzida por legumes da época, com creme de espinafres e ervas, puré de beterraba, puré de abóbora assada e vinagrete cítrico do Algarve. A ideia é fazer dos molhos as tintas que vão simbolizar as pinceladas coloridas aparentemente sem nexo do autor norte-americano. “O Jardim Português” assim foi batizado este prato.

Ainda dos Estados Unidos, Andy Warhol foi o autor em que o chef se inspirou para “Pop Portugal”: uma lata da famosa sopa de tomate Campbell’s escondia lombo de vaca cozinhado em sous-vide, puré de cenoura e laranja, e feijão verde glaceado. Uma garrafa de Coca-Cola, com molho de vinho do Porto, prolongava a ligação ao imaginário do autor pop.


De regresso a Espanha, o surrealismo de Salvador Dalí inspirou o prato “A Doce Ilusão”: batata assada recheada com creme quente de canela, frutos vermelhos, hortelã e gelado de caramelo salgado, Que, mais uma vez, foi desvendado com impacto visual, neste caso, a neblina que se libertou do gelo seco.
Entre o salgado e o doce, este prato abriu a porta para a sobremesa propriamente dita: um bolo com base de merengue de baunilha, creme pâtissière, creme de limão e ganache de chocolate. Para representar “A Noite Estrelada”, de Vincent van Gogh (a abrir o artigo). E, mais uma vez, com o convite para usarmos o pincel e deixarmos a nossa criatividade na tela.
Em pano de fundo, uma banda sonora à medida de cada obra de arte e de cada época. Um complemento enriquecedor da experiência, apenas com o senão de a música estar demasiado alta para proporcionar momentos de conversa à mesa.
Não o suficiente, porém, para afetar a espetacularidade deste jantar, em que a expressão “os olhos também comem” ganha mais sentido do que nunca.