Nasceu como um novo conceito de hospitalidade, mas hoje é também um restaurante e é também um bar de vinhos. É assim o Wel Well, em Lisboa, espaço que é diminutivo de Welcome & Wellness, mas que não é pequeno na motivação e na oferta.
A brasileira Adriana Bechara é a mentora deste projeto bem localizado entre o Príncipe Real e a Praça das Flores. Ex-jornalista especializada em moda, decidiu dar uma volta ao mundo em família como corolário de uma decisão que havia tomado – mudar de vida. Foram cinco meses, com paragem em Portugal. “Uma grande surpresa”, como conta. De tal forma, que se mudou. Trazia na bagagem a ideia de uma guest house, mas logo se apercebeu de que Lisboa não precisava de mais uma. Precisava, sim, de um espaço que acolhesse os viajantes no dia da chegada e no da partida, proporcionando um conjunto de serviços diferenciadores – desde guardar as malas a um duche retemperador, até uma massagem. E – porque não? – beber um copo ao fim do dia ou tomar uma refeição.

Foi, pois, como “uma ilha urbana de descanso” que o Wel Well surgiu, mas acabaria por se transformar num destino em si mesmo. Que se afirma como plural, contendo em si outros projetos em parceria. Como a The Other Bottle, que se apresenta como a primeira garrafeira sem álcool em Portugal. Criada como loja online há três anos, ganhou, há alguns meses, poiso físico: conta o alemão Jeremias Loock, seu fundador, que pesou na escolha o facto de ali se servir comida saudável, o que está alinhado com os seus valores. O que se propõe é fazer curadoria dos vinhos sem álcool, que – reconhece – sofrem de um problema de imagem. Tudo começou no seu país natal, onde foi precisamente produtor destes vinhos e continua em Lisboa, onde se propõe educar o público.
A loja que agora ocupa já teve como inquilino Marek Zalewski. E, coincidência ou não, o seu propósito também é educar. Fundador do projeto “100 Vinhos”, quer mostrar que, não obstante o lado romântico associado ao vinho, há muita ciência dentro de uma garrafa. E, nessa missão, promove degustações à cega. Sem o rótulo, a marca ou a região para influenciar as escolhas e as opiniões, acredita que é deste modo que se percebe o que leva cada um a gostar (ou não) de um vinho. O que fez sentido para o Wel Well e, atualmente, o wine educator assina a carta de vinhos do espaço, privilegiando pequenos produtores e projetos com identidade própria.
Por fim, mas não porque ocupe o último lugar na hierarquia, o restaurante. Adriana recorda o conselho de uma chef amiga: “Pode ter a ideia que quiser, mas, se a comida não for boa…”. Levou a sério estas palavras e hoje – como diz Nathaniel Pias, o jovem chef que está à frente da cozinha – a comida do Wel Well já ganhou reconhecimento: “Há pessoas que passam e entram para comer qualquer coisa e, no fim, dizem-nos que não esperavam o que encontraram.”
Seguindo as pisadas do avô – que foi cozinheiro de navio – Nathan, como é chamado, começou por trabalhar no Brasil, mas, a dada altura, quis expandir horizontes e, tal como Adriana, encontrou Portugal.
Em linha com o chef anterior, a cozinha saudável é o fio condutor da carta, com uma dose extra: “Gosto da ideia de comida para partilhar. Há pratos individuais, claro, mas a comida une as pessoas e o menu completa-se quando dividimos.”
Partilha no prato, descoberta no copo
E assim foi na experiência vivida num dia de sol abrasador, que pedia uma refeição leve e fresca. Pink hummus – húmus de beterraba com sticks de vegetais crus; dadinhos de tapioca com chutney de pimenta; labne com záthar – com molho de tomate, azeite e torradinhas de alecrim; stracciatella Genova – com pesto da casa, limão, nozes e anchovas; encheram a mesa de cor.
O desfile prosseguiu com muito sabor: camarões Clarisse – salteados com quinoa e vegetais, ao estilo oriental; burrata Alba – com fricassé de cogumelos trufados e raspas de limão; massa fresca Taormina – ravioli recheados com ricoto e limão ao molho de pesto; e rosbife Manheim – com crosta de especiarias, molho de mostarda e pickles de cebola.

E os vinhos? Marek selecionou Um Flui Pet Nat de 2023, um branco da Serra de Montejunto, na região de Lisboa. Integra o portefólio do projeto de Emanuel Frutuoso e Rodrigo Filipe, que abarca pequenas parcelas de vinhas velhas.
Deu igualmente a provar Atão Váz Tinto 2024, filho da adega Gerações da Talha, na alentejana Vila de Frades. É um tinto de uma casta branca (Antão Vaz), em que são aproveitadas todas as partes da uva, passando, ao fim de quatro meses, para uma nova talha, com massas da casta tinta Alfrocheiro, o que lhe confere um rosa aberto.
E, ainda, Aphros Daphne 2021, um verde de Arcos de Valdevez, 100% Loureiro. Mas que em nada se compara – no sabor e no aroma – a um verde tradicional. É produzido pela Aphros Wines, de Vasco Croft e Tiago Sampaio.



Tal como dizia o chef, a comida surpreende quem entra desprevenido neste hub de hospitalidade discretamente localizado numa esquina da cidade. E os vinhos não lhe ficam atrás. É caso para dizer: wel(l) well!