A arte ganha raízes cada vez mais profundas no projeto Quanta Terra, dos enólogos Celso Pereira e Jorge Alves. E a prova disso é o vinho ÍRIS, uma edição colaborativa com o artista Alexandre aka Vhils de que foram feitas apenas 251 garrafas de cinco litros cada – uma delas para fins solidários.
Nas garradas intervencionadas pelo artista guarda-se um tinto de 2019, uma colheita de grande qualidade que – nas palavras de Jorge Alves – “acabou por se transformar num clássico do Douro”. “Conseguimos, de forma muito exemplar, transformar uvas que estavam num estado sanitário perfeito num vinho quase eterno”, expressou, comentando: “Há aqui uma eternidade e este é mais um ponto em que a arte e o vinho se tocam.”
No sentir do enólogo, este é um vinho com uma identidade muito própria, que lhe advém das características do ano – em que choveu muito, mas na altura certa –, como da seleção de um conjunto de barricas específicas em que, normalmente, a guarda se prolonga por dez anos, mas cuja abertura foi antecipada. “Foi uma enorme surpresa”, partilhou, manifestando o sentir de que ÍRIS “conta uma história lindíssima de 2019 e uma história lindíssima da Quanta Terra”.

É uma história com 25 anos que começou a ser escrita quando os dois enólogos se decidiram lançar num projeto próprio, depois de terem trabalhado juntas, em meados dos anos 80, no desenvolvimento do espumante Vértice. “Fomos buscar o que tínhamos aprendido nas Caves Transmontanas e estudamos as castas da Região Demarcada do Douro em baixa altitude, no vale do Tua”, recordou Celso Pereira. Na altura, o que se consumia era vinho com muito álcool e grande extração, mas não era essa a ideia. “Queríamos conquistar a Lua”, sintetiza.
Dessa ambição nasce, em 2007, o primeiro vinho, um tinto. E assim foi por vários anos, até que decidiram olhar para o planalto de Alijó e viram nos solos graníticos e pobres o terreno certo para vinhos com um pH baixo, frescura e capacidade de envelhecimento. Estavam reunidas as condições para fazer brancos. Aconteceu em 2018, sendo que, tanto nos tintos como nos brancos, a Quanta Terra privilegia as castas indígenas, com uma exceção – uma pequena parcela de Pinot Noir, presente no espumante Éclat e no Phenomena Rosé.
Novo passo na construção da identidade deste projeto viria a ser dado com a transformação de uma antiga destilaria, quase centenária, num espaço que vai além do enoturismo: é um espaço de cultura, tendo-se estreado, em 2022, com uma exposição de Joana Vasconcelos. Desde então, já abriu portas a conferências, música e teatro. “Queremos alavancar o que de melhor temos para mostrar que é possível fazer alguma coisa diferente no Douro e no interior. Porque o país está muito inclinado”, enquadrou Celso Pereira.
Vhils faz parte desta história. É ele que assina esta edição especial, com o seu traço a assentar pela primeira vez em vidro. Desenhou um olho, porque representa a identidade, a expressão, a emoção. Com a particularidade de não haver uma garrafa igual: afinal, a íris de cada um também é distinta, também é identitária.