O vinho da talha corre na família de Teresa Caeiro. Não corria, no entanto, nos seus planos, quando se mudou de Vila de Frades para Lisboa a fim de estudar Engenharia de Minas. Porém, sentiu o apelo do regresso à terra e à tradução e agora coloca todo o entusiasmo na Gerações da Talha. O último 11 de novembro – dia de ir à adega e provar o vinho – assim o demonstrou.
Cumprindo a tradição, franqueia as portas da adega para se abrirem as primeiras talhas. Uma de branco e outra de tinto, cuja prova é acompanhada de uma breve explicação sobre o processo, desde a colheita das uvas – e a preferência por castas autóctones – até ao momento em que os primeiros centilitros começam a sair, num fio ainda turvo mas que, a pouco e pouco, se vai tornando mais límpido.
Com uma história de 250 anos, a adega, localizada no centro de Vila de Frades, chegou à família pelas mãos dos bisavós de Teresa, com o avô, Arlindo Maria Ruivo, a dar continuidade à tradição e ao negócio. “Era um grande produtor, além das 50 talhas próprias chegava a alugar adegas na vila”, conta.
Embora o avô ainda esteja ativo, é agora Teresa a escrever os capítulos mais recentes desta história. Uma história que é de amor ao vinho da talha, mas também de amor por João Enteiriço, pois foi o facto de se ter apaixonado pelo que viria a ser seu marido que a fez trocar a engenheira pela enologia.
Juntos, levam o projeto mais longe, pois desde 2019 que se decidiram a engarrafar o vinho das gerações. “Apercebi-me de que as pessoas não conheciam o vinho de talha, que, para mim, era tão básico”, conta.


A decisão de engarrafar não interfere com o respeito da tradução, porquanto só depois da abertura das talhas é que o vinho é transferido pata inox, onde estagia até fevereiro. A produção é de dez mil garrafas, contadas as várias referências – Natalha; Farrapo; e Atão, Vás Tinto? –, intencionalmente pequena. Das 50 talhas, pouco mais de 20 são utilizadas. “Cada talha é quase como um filho, damos uma atenção muito grande a cada uma”, partilha Teresa, para justificar que ainda não sentiu que seja chegado o tempo de crescer.
Há um outro tempo, porém, que está quase aí: o da Vitifrades, que acontece no primeiro fim de semana de dezembro e que assume a forma de uma mostra dos vinhos de talha da vila, com concurso e prémios. É um certamente que existe há 28 anos e que nasceu da vontade de recuperar a essência do vinho de talha, que se estava a perder desde a criação da Adega Cooperativa da Vidigueira, mais direcionada para a quantidade.
São 55 os produtores identificados, sendo que muitos deles apenas produzem para autoconsumo. “Há muitas adegas e muita tradição. É um bichinho que está dentro de nós.”