Quem passa pelo número 5 da Rua da Horta Seca, em Lisboa, não imagina o que o pátio reserva: o 26 Vegan Project, restaurante de Catarina Gonçalves e que se dedica a provar (literalmente) que a comida exclusivamente com produtos vegetais é saborosa e pode ser (muito) criativa.
Isso mesmo tivemos oportunidade de comprovar num almoço. Mas, antes a história deste lugar secreto e quase romântico da cidade e desde projeto que entra no décimo ano de vida. Engenheira civil de formação e profissão, enfrentava sempre uma dificuldade quando pretendia jantar fora: sendo vegetariana, deparava-se com a ausência de opções nos menus ou com pratos que define como clichés. Daí surgiu uma pergunta: “Onde gostaria de ir jantar?”. A resposta foi imediata: “Ao meu restaurante.”
Desse diálogo consigo própria nasceu o 26, cuja primeira morada foi a Rua Vítor Cordon, ali bem perto. Mas, rapidamente o espaço se revelou limitado para a ambição, além de que – admite – havia lacunas ao nível do conforto e da estética. Foi neste pátio no Chiado que encontrou a solução. Estava em tosco, tendo sido feitas obras de raiz para acolher o restaurante. De cozinha aberta para a sala, está repleto de pormenores decorativos – das peças antigas às pinturas, contribuem para o ambiente aconchegante criado pelos tons quentes escolhidos para os sofás e as cadeiras.


Uma mudança mais recente – a do chef – alimentou uma nova carta. “A mudança de carta é sempre um acontecimento. Dá muito trabalho e, por isso, merece uma celebração”, partilha Catarina, que, além de proprietária, é a autora das sobremesas.
À frente da cozinha está agora João Castro. Formado pela Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, passou pelo Infame (Hotel 1908) e pelo Grupo Atalho antes de chegar ao 26. E abraçar uma cozinha que pode ser desafiante para quem fez o percurso na gastronomia tradicional. É ele próprio que admite o desafio: “Estudei, li muito, testei produtos que não conhecia. Mas, percebi que já muito para explorar.” Havia um objetivo: criar pratos que qualquer pessoa apreciasse. E, claro, não sair das raízes do 26. A missão foi cumprida: “O que é mais gratificante é que as pessoas que não são veganas mostram o seu agrado.”
Foi o caso. Mas, antes do agrado, a surpresa: com propostas como a tábua de “queijos”, capaz de iludir o olho tal a semelhança com as variedades originais – do brie e do roquefort, sobretudo. No sabor, percebe-se a diferença – na base está caju –, mas a prova não perde nada com isso.
Ainda nas entradas, provamos “cartas de uma nova terra” – um tártaro de jaca confitada, finalizado com “gema” e óleo de trufa, tudo envolvido como um tártaro de carne, mas em que não se sentiu a falta da… carne.
Outros petiscos bem portugueses se sucederam: “sardinha melancólica”, constituída por uma tiborna de “sardinha” sobre tapenade de azeitona e maionese de pimentos assados; “choco” frito, o mesmo é dizer cogumelo eryngui panado, acompanhado de molho tártaro; mexidos de “alheira”; entre outros.
Nos principais, foi servido tofu à lagareiro, com o tofu envolto em alga nori acompanhado de todos os sabores que fazem o lagareiro, bem como das tradicionais batatas a murro. E “notas de chuva”, com a criatividade do nome a representar, no prato, tempeh de tremoço sobre arroz negro em coco e molho de tahini e gengibre, finalizado com laranja braseada.
Nas sobremesas, pontuaram a “sopa dourada”, uma homenagem aos doces conventuais (pão-de-ló com doce de “ovos”, amêndoas caramelizadas salgadas e gel de limão), e a mousse de chocolate (com azeite e flor de sal). Dois convites à gula pura e simples, porque este almoço 100% vegetal não deixa créditos por mãos alheias no que toca à saciedade.


De fora – e porque se tratava de conhecer as novidades – ficaram alguns dos clássicos do 26, como a “bifana” sublime ou a “francesinha”, que está na carta desde 2017. Apesar de emblemáticos, estes pratos têm sofrido transformações, em linha com a própria filosofia da carta: “Até 2019, era quase uma réplica dos pratos portuguesas. Mas, agora, é mais criativa, inspirada em sabores, em paisagens, em pessoas”, conta Catarina Gonçalves.
São boas razões para não passar ao lado do número 5 da Rua da Horta Seca e descer as escadas que conduzem ao pátio.