Um cocktail com vista para o oceano. Só isto seria mais do que suficiente como pretexto para entrar no Sesimbra Oceanfront, o primeiro e único hotel de cinco estrelas da vila piscatória. Mas, havia mais um motivo a justificar a visita: descobrir a nova viagem gastronómica iniciada pelo restaurante MarLuso.
Ricardo Noronha, da Highgate Portugal, é o anfitrião desta incursão, que começa no investimento de um milhão de euros que, em 2024, converteu o Sesimbra Hotel & Spa. A operação, com foco no conforto, valeu uma estrela adicional a esta unidade com passagem direta para a Praia da Califórnia.
Voltando ao cocktail: criado por Catarina Pinhel, bar manager e responsável pelo Poké Bar, o Pescador Sour combina Licor do Pescador, com um ativador de espuma vegano, numa abordagem ao tradicional sour que deixa de fora a clara de ovo. É também ela a autora do Arrábida Expresso Martini, que colocou ponto final à refeição: na base está outro licor local, o de Arrabidine, descrito como “engarrafamento de café com cheirinho”.
Entre os dois momentos de mixologia, oportunidade para conhecer a carta de verão, assinada pelo chef José Faustino. E para ficar a saber que assumir a cozinha do hotel era um desejo há muito acalentado. Nascido em Setúbal, mas com família em Sesimbra, ia a banhos no mar fronteiriço ao hotel: “Já tinha a paixão pela cozinha, pois todo o secundário foi feito na área. Mas, via o hotel e via-me a trabalhar com esta vista belíssima”, partilha.
Seriam precisos alguns anos para acontecer. Primeiro, o curso na Escola de Hotelaria de Setúbal, depois o estágio em Troia, uma experiência no Algarve e uma outra em Lisboa. Até que, numa visita a Sesimbra, o bichinho acordou e o momento surgiu sob a forma de um convite de Bruno Rocha, atual diretor de F&B da Highgate, com quem tinha trabalhado já. “Não pensei duas vezes.”
Não foi logo titular da cozinha, com a sua entrada a coincidir com as obras de restruturação do hotel e o restaurante a servir uma carta de homenagem ao navegador local Sebastião Rodrigues Soromenho. José Faustino manteve a homenagem, mas propôs-se enaltecer a passagem do português por mares do Havai, do México e da Guatemala, no século XVI. O que significa apostar numa base portuguesa, com nuances asiáticas, “puxando pelas receitas antigas, mas aprimorando as técnicas”. É – diz – “o casamento perfeito”.
Que comece então a viagem. Primeiro, um couvert formado por pão da Azoia, manteiga marinha do Pico e um inesperado dip de tremoço e coentros. Um trio que haveria de acompanhar toda a refeição, na verdade.



Nas entradas, marcaram presença os croquetes de carne, com vaca e porco estufados lentamente, depois desfiados com um garfo e temperados com tomilho. Seguiram-se guiosas, um prato asiático, mas com camarão ao alhinho no interior, um toque de gengibre, para limpar o palato, e molho ponzu feito “em casa”.
Salada de polvo com batatinha assada e gaspacho alentejano, com ovo ralado e crocante de presunto, completaram este desfile inicial. Havia ainda que provar a versão de bacalhau à Brás, aqui com uma tapenade de azeitona e emulsão de ovos, para conferir volume e cremosidade.



Chegada a hora da sobremesa, veio a dobrar – uma mousse de chocolate (70% cacau) com azeite e flor de sal; e farinha torrada. Esta última não está oficialmente na carta, mas faz parte da homenagem ao navegador: é que, nos tempos dos mares nunca dantes navegados, equivalia às atuais barras energéticas, garantindo alimentando e energia nas longas viagens sem perecer ao frio ou ao calor. Na versão do MarLuso está enriquecida e, além da farinha e do açúcar que são a base, leva chocolate, canela e limão.
A fusão de sabores e influências é servida numa sala ampla, de vidros rasgados sobre o oceano, a que a renovação do hotel conferiu uma decoração minimalista, ligada à natureza.