O Paço dos Cunhas acaba de apresentar duas novas colheitas do Vinha do Contador, ao mesmo tempo que se estreia num novo segmento de mercado, com o Clos de Santar. Em comum, os três vinhos têm o tempo, fio condutor deste produtor do Dão.
Foi isso mesmo que a equipa afirmou no evento de lançamento das novas referências, com as palavras do diretor comercial, Miguel Rodrigues, a sintetizarem o conceito desta propriedade com sete hectares de vinha no coração da vila de Santar.
Para esta vinha convergem condições muito singulares que conferem aos vinhos “um carácter único”: a localização a uma altitude de cerca de 400 metros, com o rio Dão a dois quilómetros, e uma moldura constituída pelas quatro principais serras do país. São elementos que influenciam o terroir e que moldam vinhos lançados apenas em anos específicos. “Não há colheitas da Vinha do Contador todos os anos, porque o nosso conceito é exatamente saber esperar, para produzir grandes vinhos e para os apresentar ao mercado na altura certa, quando a enologia determina”, destacou.
Ladeados por muros, os sete hectares da vinha que dá nome aos vinhos premium do Paço dos Cunhas são um field blend, em que 85% corresponde a castas tintas e o restante a brancas. Nestas últimas, domina o Encruzado (80%), sendo que a Malvasia Fina e a Cerceal partilham o demais da parcela. Já nos tintos, a maior proporção pertence ao Alfrocheiro, com a Touriga Nacional e a Tinta Roriz a corresponderam a 20%, cada: uma quarta casta marca presença, a Jaen, mas raramente é utilizada no lote.


E, nesta lógica de saber esperar, chegou o tempo de conhecer o Paço dos Cunhas Vinha do Contador Branco Nobre 2017. Esta é a segunda colheita, depois da de 2015, a ostentar o selo Nobre, uma menção atribuída por um painel da CVR Dão. Como sublinhou o enólogo Paulo Prior, não é uma marca que o produtor possa usar por iniciativa própria, mas, sim, um designativo de qualidade, obtido por consenso dos provadores. Aliás, desde que foi criada, apenas 13 vinhos mereceram esta designação.
Assim é com este branco, um vinho de longo estágio em madeira, com a particularidade de as barricas novas de carvalho francês serem provenientes de diferentes tanoarias e terem sofrido diferentes tostas. Na prática, é uma experiência em curso.
Não obstante o estágio de 18 meses, a madeira não esmaga a fruta, estando bem integrada e permitindo preservar a frescura. Descrito como cristalino, exibe uma cor citrina intensa com ligeiros tons dourados. Foram produzidas 4500 garrafas de 75 cl, sendo que este lançamento assinala a estreia do formato Magnum, numa edição de apenas 166 garrafas.
Mais dois anos foi o que esperou o novo Paço dos Cunhas Vinha do Contador tinto: o mercado acolhe agora a colheita de 2015, em 2.250 garrafas numeradas de 75 cl e apenas 60 de 1,5. Do lote faz parte Tinta Roriz, uma casta que o enólogo reconhece ser mal amada, mas que considera fabulosa: “Somos uns privilegiados por a termos nesta vinha”, resume, especificando que não se trata de quantidade, mas de a respeitar para um vinho diferenciador.
O estágio deste tinto decorreu por 24 meses, em barricas de carvalho francês de tosta fraca, sendo metade barricas novas e a outra metade de segundo uso. Não obstante, também aqui, na leitura de Paulo Prior, o lado balsâmico aportado pela madeira está “totalmente integrado”, em plena harmonia com a fruta. De cor rubi profunda, é descrito como um vinho que evidencia complexidade.
Quer o branco, quer o tinto, são vinhos produzidos apenas em anos de exceção. Este ano com a novidade do formato magnum, uma resposta ao mercado e que fez sentido ao Paço dos Cunhas, atendendo ao valor acrescentado dos Vinha do Contador.
Muros engarrafados
Em sentido inverso, isto é, da enologia para o mercado, nasce o Clos de Santar. Trata-se de uma segunda marca que acolhe vinhos de valor acrescentado, mas que não reúnem as características necessárias para serem engarrafados como Vinha do Contador. É uma nova expressão do produtor, que mantém a espinha dorsal da gama premium, até porque tem origem nas mesmas vinhas e é influenciada pelas mesmas condições. “A matriz é a mesma”, resume o enólogo.
Assim, a marca Clos vai ser sinónimo de vinhos mais jovens, com perfil mais fresco, que vão estar disponíveis com mais regularidade, mas nunca coincidindo no ano de colheita do Vinha do Contador. Este primeiro é um tinto de 2020, engarrafado em maio de 2024, após estágio de 24 meses, pelo mesmo método.
Aqui, as notas de madeira e as de fruta são mais evidentes, precisamente por ser um vinho mais jovem. De cor que se aproxima do granada, exibe, ainda, apontamentos vegetais e um tanino vibrante.
Quanto ao naming, adota o termo francês “clos”, que corresponde a vinhedos cercados por muros: existem na Borgonha e em Champagne, tal como existem em Santar. E é a impressão digital desses limites que surge no rótulo, ainda que alinhado com a identidade visual dos demais Paço dos Cunhas.
Foram produzidas 4662 garrafas de 75 cl, cuja distribuição está a cargo da Vinalda, à semelhança das demais referências, no seguimento de uma parceria que vem desde 2018.
