É portuense de nascimento, mas pode dizer-se que Ricardo Pinto Nunes é enólogo do mundo, pois já trabalhou em França, no Chile e na Nova Zelândia. Em 2007, voltou a casa e assumiu, entretanto, a direção de produção da Churchill’s para fazer os vinhos de que gosta – sem maquilhagem, mas com arestas, que mostrem o lado mais extremo do Douro.
A enologia como um acaso ou um destino?
Foi um acaso. Ao concorrer ao ensino superior, procurava algo ligado à natureza e ao ar livre, como desporto ou agricultura. Tinha uns amigos que tinham entrado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro no ano anterior e decidi concorrer para Enologia para ver se me adaptava. Em boa hora o fiz!
O mundo dos vinhos é o seu lugar porque…
Sinto-me preenchido. Gosto do processo de criação, de inovar, gosto do facto de cada vinho ter a sua história, da excitação da vindima, de cada ano ter a sua dificuldade, personalidade. Gosto do que um copo de vinho traz a uma mesa, a uma conversa. É um momento de comunhão, de partilha.
Há um sentimento de legado, de tradição, de história, de fazer vinhos para as gerações seguintes que me seduz.
Uma palavra para definir a sua enologia (e porquê)
Minimalista. Acima de tudo, gosto de vinhos sem maquilhagem. Vinhos com arestas, com caráter, com personalidade. E acho que intervir o menos possível permite mostrar esse lado mais extremo e selvagem que o Douro nos oferece.
O que é que o Douro tem?
Tem tudo! Não vejo o Douro como um terroir, mas como uma imensidão de terroirs diferentes. É como um puzzle, o desafio está em interpretar e tentar combinar todas as peças de acordo com a nossa visão e filosofia.

A magia faz-se na vinha ou na adega?
Na vinha. Quanto melhor for feito o trabalho na vinha, menos trabalho se tem na adega. Fundamentalmente, é só não estragar. Na adega, é um trabalho de afinamento, de detalhe.
Se a Churchill’s fosse um vinho, quais seriam as notas de prova?
Estaríamos a falar de um vinho elegante, mas firme. Com personalidade, frescura e intensidade. Arrojado e delicado, com excelente potencial de envelhecimento!
Fortificados ou tranquilos?
São duas abordagens diferentes, mas, a escolher, diria fortificados. Adoro a magia do mundo do vinho do Porto, o ritual do blend, da curadoria dos lotes, da visão a longo prazo, geracional. Os vinhos tranquilos são um processo mais curto, mais fechado.
O vinho do Porto é gastronómico?
Muito! E versátil. Percebo que nem sempre é fácil decifrar todas as diferentes categorias do vinho do Porto, mas é essa versatilidade que faz com que possa ser apreciado em diferentes momentos e em diferentes harmonizações. É uma bebida naturalmente feita de uma região histórica, fabulosa. Acho que falta valorizar mais o vinho do Porto, é algo nosso, é especial.
O que é que a altitude dá aos vinhos?
Frescura, tensão. Depende sempre das vinhas e das castas, mas vinhas a cotas mais altas oferecem leveza, nervo. Ajudam a equilibrar um vinho.
O vinho preferido do portefólio?
Os vinhos são como os filhos, é difícil escolher! Talvez por ser um vinho que me dá muito prazer a fazer (e a beber), o Quinta da Gricha DOC Tinto. É um vinho delicado, sedutor, mas complexo. Bebe-se muito bem!

E o que falta fazer?
Muito ou quase tudo. Não podemos parar, surgem sempre novos desafios. Temos de nos adaptar e evoluir, o mundo anda rápido.
Perceber as novas tendências, ajustar a viticultura e a enologia às alterações climáticas, sem perder o respeito pela nossa história e tradição.
A que país regressaria para fazer vinho?
Felizmente, tive a oportunidade de poder fazer vinhos fora de Portugal antes de regressar. Guardo as melhores memórias desses tempos. Talvez regressasse ao Chile, uma vez que gostava de ter aprendido mais sobre a cultura e de ter amadurecido mais o meu conhecimento sobre os vinhos e sobre o país.
A quem gostaria de oferecer um dos vinhos com a sua assinatura?
Gostava de ter podido oferecer uma garrafa ao Papa Francisco. Não o podendo fazer, ofereço com amizade e gratidão ao Johnny Graham, por tudo o que me tem ensinado nos vinhos e na vida.
