Entrar no Soi, em Lisboa, é aceitar um convite para viajar. Ou melhor, para se deixar levar pelos sabores das muitas viagens que o chef Maurício Vale fez, desde a adolescência, pela Ásia. E o que se propõe servir há quase oito anos é a inspiração que lhe chega, ano após ano, da comida das ruas tailandesas.

É por isso que afirma que o Soi é um projeto muito pessoal, que começou a germinar na esteira do sucesso do Asian Lab, no Time Out Market. E é pessoal desde logo porque Maurício não queria abrir “mais um restaurante pan-asiático, mais um japonês ou mais um tailandês”. Queria, isso, sim, trazer o conceito para Lisboa o conceito de street food tal como o descobriu em Banguecoque e Chiang Mai. “É um movimento extremamente interessante que começa nas grandes capitais inspirado na cozinha clássica. Se quisermos conhecer um país através da gastronomia nada melhor do que a street food”, afirma, à conversa com a Farniente.
Está convicto de que a street food contém, em si, a identidade das grandes cidades. E admira, em particular, a cozinha altamente criativa e a preços baixos, com grande qualidade de produto, que se serve nessas ruas, em mesas corridas, em que as classes sociais desparecem. “Via aquilo e pensava que tinha de levar para um restaurante, era essa energia que queria trazer para Lisboa”, partilha.
E assim nasce o Soi, cuja nome não deixa margem para dúvidas: significa “rua” em tailandês. O que chega à mesa no restaurante do Cais do Sodré é, desde agosto de 2017, são “sabores super verdadeiros, genuínos”, o mais próximos possível dos tailandeses. E quando diz “o mais próximos” é porque os produtos são portugueses, uma escolha ditada pela sustentabilidade. Importar implicaria viagens de avião, logo emissões de dióxido de carbono, o que descarta. “Adaptei-me com o que tinha à minha volta”, comenta, afiançando, porém, que as matérias-primas são “únicas”, “diferentes”.
A carta, essa, respeita o registo de street food, com snacks para degustar e partilhar, que se possam comer à mão. Move-o o gosto de proporcionar momentos divertidos através da comida. Mas há igualmente espaço para pratos principais, em que pontua a perna de cordeiro. Sempre que, em todos, o convite é para uma viagem por sabores longínquos.
Recusa escolher um preferido: comenta, a brincar, que seria injusto para os outros. Ainda assim, cede e coloca no pódio o pannang curry & shrimp – camarão tigre branco, citronela, chili seco, amendoim, coco e manjericão. “Dos melhores caris que existem, é uma oscilação de sabores tão completa que todo o palato trabalha. É altamente sensorial”, descreve.
O pódio tem também lugar para os mini hot dogs, inspirados numa salsicha tailandesa “super aromática”, para comer em “duas ou três dentadas, no máximo”. “Manifesta muito o trabalho que fazemos aqui”, resume.


No almoço que acompanhou esta conversa não podiam, pois, ter faltado estes dois eleitos. Mas, a viagem foi mais completa e a mesa encheu-se ainda com korean chicken wings – asas de frango, gochujang e amendoin – e uma crispy thai salad, com ceviche de camarão, manga e papaia verde, banana pão frita e dipling de amendoim. E, claro, sobremesa: gelado artesanal de chá.


E se lhe é difícil eleger o preferido, difícil está igualmente a ser a renovação da carta. “Não por falta de criatividade”, garante, mas porque o Soi já fidelizou clientes que gostam de encontrar os “seus” pratos. Além de que estes mais de sete anos trouxeram a certeza de que “todos os pratos funcionam”. Não obstante, “religiosamente”, uma vez por ano há mudanças.
Maurício Vale diz que nunca idealizou um restaurante da moda. Sempre quis um espaço intemporal, mas que refletisse as influências da sua cozinha e que trouxesse para Lisboa o cruzar dos costumes tailandeses e da modernidade do país. Daí que uma das paredes seja mais industrial e a outra mais orgânica.


É com entusiasmo que fala do seu projeto. Tornando redundante a pergunta que encerra a conversa: “Diverte-te na cozinha?”. “Claro! Se não me divertisse, o que andava aqui a fazer?”.