Há como que um luxo discreto em almoçar numa esplanada em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa. Luxo porque os sons da cidade ficam inesperadamente do lado de fora, oferecendo tranquilidade à refeição e à conversa em volta dela. E discreto, porque no Kiosk at Fish – é dele que falamos – não há ostentação, há um espaço confortável e um serviço acolhedor. E, claro, boa comida!
Este Kiosk é a extensão do JNcQUOI Fish, mesmo do outro lado do passeio. A escolha do nome percebe-se, na sua dupla ligação ao espaço – ao restaurante que é casa-mãe e ao quiosque típico que é a âncora do serviço de esplanada. O verde escuro clássico destas instalações lisboetas contaminou, positivamente, todo o conceito – das cadeiras Gonçalo, também elas tradicionais, de design e fabrico made in Portugal, às mesas e aos toldos, sem esquecer as fardas da equipa.

Abriu em outubro, pensado para acrescentar diversidade ao restaurante, com propostas mais descontraídas, para quem passa e não resiste a uma paragem à sombra, para quem pretende apenas refrescar-se com uma bebida, petiscar ou fazer uma refeição mais completa. Mas, sempre sem formalidade, nomeadamente sem a formalidade de reservar mesa.
Assim se explica o horário – das 10 às 23. Há que dizer, porém, que, independentemente da hora, o ambiente convida mais a uma refeição leve ou de partilha. Não que isso retire elegância (e, muito menos, profissionalismo) ao serviço, que chega à mesa no ritmo certo e com a simpatia certa – próxima e atenta, mas não invasiva.
E o que chega à mesa tem assinatura do JNcQUOI, claramente, neste caso, a assinatura dos chefs António Bóia e Filipe Carvalho. Com a carta a ser exatamente a mesma da sala interior, uma carta em que predominam os sabores do mar. Afinal, se é Fish…
Nas entradas, há propostas clássicas, quase incontornáveis, como as ameijoas à Bulhão Pato ou o camarão à guilho. Mas, não foi por aí o nosso almoço: peixe (do dia) fatiado com caviar e ervas exóticas – um início fresco que se revelou ideal para um dia quente – e carabineiro com alho e ovos de codorniz estrelados – um contraste surpreendente, mas harmonioso.


Nos principais, uma outra boa surpresa – bitoque de atum com ovo a cavalo, um dos pratos de partilha que a carta destaca. O atum a trocar as voltas a um prato que é, por definição de carne, sofreu um processo de maturação idêntico ao de uma peça de bovino, pelo que não se sente minimamente a falta do bife. No ponto certo, com um molho tão guloso como o do bitoque convencional.
Para o final estava reservado paccheri de lavagante e tomate – típica da região italiana da Campânia, esta pasta com formato de tubo grande chegou al dente, como se quer, abraçando, por completo, os sabores do molho de tomate e de marisco. Acompanhada, claro, por pedaços suculentos do mesmo.



Não era exatamente o final do almoço. Porque carecia um apontamento doce, com a escolha a recair – diria que inevitavelmente – sobre o que se poderá apelidar de doce da casa. Cada JNcQUOI tem a sua versão de baba de camelo e, no Fish, serve-se a baba de crocodilo, inspirada nas natas do céu, típicas da região de Aveiro de onde o chef Filipe Carvalho é natural. Porém, mais leve, com açúcar q.b., e, como nos demais restaurantes, servida ao momento a partir de uma taça gigante. Um pormenor, apenas, mas um bom remate para toda a experiência.
Uma experiência de que emerge uma conclusão: o Kiosk at Fish é – desculpem o trocadilho óbvio – fixe.