Um caminho. É assim que a Quinta do Sampayo apresenta o seu mais recente vinho, o tinto da colheita de 2024. E um caminho porque marca uma evolução face à estreia, em 2023, ditada pela aposta na sustentabilidade e na agricultura regenerativa.
E, sendo um caminho, o fim ainda não está à vista. Afinal, o projeto é jovem: passaram apenas dois anos desde que Ana Macedo, com o marido, Pedro, tomou conta da quinta e se decidiu a mudar de vida para cumprir o sonho do pai.
Isso mesmo partilhou na apresentação do novo tinto, num evento em Lisboa conduzido pelo escanção Manuel Moreira. Ainda que sendo um projeto acalentado pelo pai, Ana sublinha que o propósito é imprimir-lhe um cunho pessoal, assim se explicando as alterações que têm vindo a ser introduzidas na propriedade de quase uma centena de hectares em Vale da Pinta, na região do Cartaxo.
Pedro Macedo diz mesmo que o projeto que começou com um “e se?” agora é a vida da família: “Aprendemos nos últimos dois anos que estar no vinho é uma forma de vida. Quando decidimos fazer vinho na Quinta do Sampayo, quisemos fazer um vinho de que gostássemos”, comentou.
Mas – destacou – “fazer de maneira diferente”: “Temos dois filhos pequenos e pensámos no que lhes vamos deixar daqui a 40 anos. Como produtores sentimos que temos de fazer mais”, contou, para justificar a aposta na sustentabilidade e na agricultura regenerativa. Olhar para o solo não apenas como suporta, mas como a própria vida da planta, traduz-se num “vinho mais honesto, mais simples e mais direto”, “mais ligado à terra e à tradição”.
“Este vinho já diz muito do que queremos ser”, comentou. Dentro da garrafa, apenas castas portuguesas; e, na própria garrafa, um vidro mais leve, um rótulo reciclado e lacre em vez de alumínio na cápsula.

Colocar estes valores em prática tem sido a tarefa de Marco Crespo, na enologia, e de André Domingos, na viticultura. É este último que fala do terroir da quinta como sendo caracterizado por uma heterogeneidade de solos e pela mineralidade. O enólogo reforça o potencial dos 60 hectares de vinha para produzir vinhos distintos dos que já tradicionais da região e que, por norma, são vinhos intensos e com elevado teor alcoólico. “Menos intensidade e mais elegância, e menos álcool – será por aqui o nosso caminho”, sintetizou.
A mudança começou a ser gizada com o Quinta do Sampayo branco 2024, um blend, em partes iguais, das suas castas mais icónicas do Tejo, Fernão Pires e Arinto. A primeira colhida a 25 de agosto, a segunda a 19 de setembro, estagiaram em separado, com o engarrafamento a ter ocorrido em maio deste ano. O resultado é, nas palavras de Marco Crespo, “um vinho com largura e volume, de madeira bem casada e que pode crescer na garrafa”.
Também o tinto é a segunda edição e é fruto, segundo André Domingos, do conhecimento das parcelas e do comportamento das castas, revelando uma evolução na abordagem entre as duas colheitas. “Sente-se a diferença”, comentou, dando conta de que as parcelas que lhe estão na origem apresentam potencial para uvas de grande qualidade, com vinhas bem estruturadas e maturações equilibradas a nível da acidez e dos açucares.
Aragonez, Castelão e Touriga Nacional entram neste blend, que deixou cair a Syrah. “É uma ótima casta, mas, tendo em conta a nossa opção por castas autóctones, não fazia sentido”, explicou. No final, é um vinho com um perfil menos alcoólico e mais frescura. E que, mais uma vez, foge ao rótulo do Cartaxo tradicional.
De vindima manual, em pequenas caixas – “Gostamos de fazer as coisas com calma”, comentou o enólogo –, fermentou em lagar, com temperatura controlada (24º) e apenas uma ou duas remontagens diárias, “para não extrair e macerar demasiado”. Do lote, 60% estagiou durante seis meses em barrica nova de carvalho francês e o restante em inox. “A madeira confere riqueza, mas é preciso equilíbrio”, afirmou, para justificar esta opção.
Na interpretação do guia desta viagem pela “nova” Quinta do Sampayo, este tinto vem “desmontar a ideia de que os vinhos são todos iguais quando associados a uma área mais ampla”. É, pois, do Cartaxo sem ser do Cartaxo.