Há pratos que são verdadeiras obras de arte. É certo que, no final, é o sabor (leia-se produto) que conta, mas as primeiras impressões vêm do olhar. E as sobremesas do mais recente menu do Akla, o restaurante do InterContinental Lisbon, são a prova de que os olhos também comem.
Começamos, pois, pelo fim da refeição neste regresso à mesa do chef. Para testemunhar a ousadia criativa de Eddy Melo. E para ficar rendida a duas sobremesas que são muito mais do que doces. Se não estivéssemos num restaurante poderíamos até ser julgar que, no prato, nos eram oferecidos dois seixos, de tão realista que é a “Pedra Proibida”. É uma combinação de mousse de abacate e Grande Marnier, com cereja amarena, pistácio, lima e gel branco, que, depois de surpreender o olhar, surpreende o paladar. Os mesmos atributos se encontram em “Yellow Velvet”. Uma simbiose de mousseline de mirtilo, ganache de pistácio, ganache de manga e maracujá, biscuit de pistácio e spray velvet, é como um fruto ou uma pequena couve-flor, com o impacto visual a beneficiar da tridimensionalidade.

São duas sobremesas que contrariam a visão de simplicidade que o chef materializou na nova carta. E que o leva, com entusiasmo, a desfiar, ingrediente a ingrediente, a receita de pratos como o aveludado de pastinaca com leite de ervilha e um fio de azeite DOP de Monsaraz. Diz Eddy Melo que gosta de “descomplicar as coisas”, para logo de seguida esclarecer que pode ser simples, mas tem de estar perfeito. E estava – o creme à base de uma raiz pouco usada na cozinha portuguesa atual, mas com tradições fortes no interior do pais apresentava-se sedoso, equilibrado no sabor (graças a umas gotas de limão adicionadas para cortar a doçura natural do produto).
Era apenas o preâmbulo. Seguiu-se um croquete de camarão de Moçambique, esfera de trufa, coulis de pimenta da terra e azeite. Simples, mas a esconder a surpresa de um interior líquido, em nada semelhante a um croquete convencional.
O trio de entradas completou-se com atum dos Açores, batata doce, espinafres, pimenta da terra e cebola de curtume. Com o peixe a evocar as origens do chef e a sua predileção por produtos locais.



As pièces de resistance (em francês, sim, lembrando os anos que Eddy Melo viveu no Canadá e que o fazem trocar de idioma com espontaneidade) ocuparam, depois, a mesa do chef. E aí, sim, a simplicidade foi por demais evidente, deixando brilhar o produto.
O desfile não era para vegetarianos ou vegans, se bem que, nesta carta, haja opções que satisfazem plenamente quem segue estes regimes alimentares (e quem não segue também): risoto de boletos com burrata trufada ou ravioli de açafrão com abóbora assada e requeijão de Seia são apenas duas.
Mas, aqui era de carne que se tratava: frango do campo, costeleta de porco preto (alimentado 100% a bolota), carré de borrego (irlandês, porque, diz o chef, só por ali encontra o corte que lhe enche as medidas), chuleton. Os acompanhamentos valiam por si – bimis salteados em azeite e alho com parmesão; cogumelos marron salteados com manteiga e salsa; e carolo de milho amarelo, leite de cabra e queijo da ilha com 36 meses de cura.



Há que fazer justiça aos vinhos que acompanharam este almoço. Três brancos, todos eles monocastas: primeiro, do Dão, o Quinta das Camélias, um Encruzado meio seco, de acidez regulada e um toque cítrico; depois, um alentejano – Monte das Bagas de Ouro reserva de 2022, um Antão Vaz que estagiou seis meses em barricas de carvalho francês, exibindo notas de pêssego e ameixa; finalmente, Batente, um Castelão de Setúbal de 2022, mais encorpado, como se pedia no crescendo de intensidade conferido pelas carnes grelhadas.
Nesta nova carta do Akla, o produto é respeitado e o sabor é o protagonista. Mas, a estética tem um lugar incontornável à mesa.