Uma missão difícil. É assim que o chef José Luís Diniz sintetiza a reviravolta gastronómica que lidera no Ardea, o restaurante do Legacy Hotel Cascais, onde, desde o início do ano, se propõe servir pratos dignos de uma tasca fina – as palavras são dele –, uma cozinha com sensações e com conforto.
Onde hoje é o Ardea viveu, até finais de 2025, o Don Alfonso 1890, um fine dining de inspiração italiana. O espaço mantém inalterada a sua identidade visual – a decoração continua impactante e as cores fortes e vibrantes contribuem para um ambiente acolhedor. E foi à decoração que o novo restaurante foi buscar o nome de batismo: Ardea significa garça, tal como as aves brancas de asas rasgadas que “voam” no papel de parede e nos estampados das cadeiras.

Visualmente, a ponte com o conceito anterior permanece. Mas, apenas visualmente. Porque, na cozinha, José Luís Diniz tem outra visão: propõe um regresso às origens, à chamada cozinha da avó. É – diz – o que procura fazer há já muitos anos e o que vê agora chefs renomados fazer também, deixando cair os menus de degustação repletos de momentos.
Reconhece que os clientes precisaram de se habituar, tendo recebido com surpresa a mudança, mas acabando por se render. Os estrangeiros, esses, ficam muito curiosos quando lhes chega à mesa propostas como filetes de pescada com arroz de tomate.
“Começamos devagar com este conceito mediterrânico, que vai buscar um bocadinho de Portugal, de Espanha e da Grécia, sem esquecer Itália”, afirma, comentando que lhe junta também um pouco de França, visível, sobretudo, nos molhos.
Na sua cozinha, diz o chef, o que conta não é tanto a beleza do prato – embora haja cuidado na apresentação -, mas o sabor que ele transmite. Pretende mostrar que é possível “comer bem” em hotéis superiores como o Legacy Cascais.
Um almoço e uma conclusão
E foi esse o desafio para o almoço de apresentação da nova carta, a segunda (depois de uma primeira, com propostas para os dias mais frios). Não provamos os filetes, o prazo em que a equipa deposita grandes esperanças: “Na cozinha, já apostamos que vai ser o mais vendido”, comenta.
Mas provamos gaspacho de tomate, numa versão andaluza – também o há no Alentejo. Uma sopa fria, com picadinho de pepino e croutons crocantes mesmo à medida de um dia quente.
Continuamos por Itália, com ravioli de camarão e mascarpone servidos em caldo de marisco. Uma reminiscência do antecessor, com o tal toque francês no bisque.


Nos principais, reinou Portugal. Primeiro, naco de atum à Bulhão Pato – na chapa, com as ameijoas salteadas em alho, azeite, limão e coentros, e grelos salteados a acompanhar. Um sabor que o paladar reconhece automaticamente como português.
Do prato seguinte, de carne, o nome diz tudo: bife de boi à portuguesa. Um clássico com molho de cerveja, presunto e ovo, mas com a batata trufada a aportar um toque de contemporaneidade.

Nas sobremesas, o diálogo fez-se entre Itália e França, mas com Portugal sempre a marcar presença: tiramisu em vinho de Carcavelos e tartelete de chocolate negro com raspas de laranja do Algarve.
A acompanhar, dois vinhos DOC Trás-os-Montes da marca Head Rock: um branco composto por Alvarinho e Gouveio, e o tinto com Touriga Franca e Tinta Roriz.
No final do almoço, uma certeza: a missão do chef que já foi professor de desporto e treinador de voleibol feminino é uma missão (mais do que) possível.